07/05/15

Leite vai, leite vem... Será que estou ficando sem?

Pois é gente, essa é a grande pergunta, a grande dúvida das mães que amamentam(os). Pensamos que o bebê nasce, o leite desce uns dias depois, passamos por umas semanas -talvez- de adequação da oferta (do nosso peito) e a demanda (do nosso bebê), e pronto: produção estabilizada até que decidamos desmamar, ou a criança o faça por si mesma. Tudo bem, sabemos que os primeiros meses o peito está mais inchado, e a partir do terceiro, mais ou menos, já não fica tanto assim, mas não tem a ver com que o leite esteja secando. A teoria é bonitinha, né? Mas aceitar a realidade do dia a dia é outra coisa.



-Acordamos no meio da madrugada com os peitos como balões e o pijama molhado, estourando. Passamos vários dias com os seios assim, cheios, inclusive adoloridos, massageando, ordenhando... E derrepente, dias depois, parece que já não temos mais leite. "Pronto, acabou, não deu certo comigo", pensamos... "Agora estou toda murcha, sem jorrar leite. Será que foi o antiinflamatório que tomei? Será que fiz errado? Ou eu não sou boa de leite?"

-"Oooops, agora o bebê não solta o peito, pede a cada hora, briga com o bico. Pronto, estou ficando sem leite", pensamos.

-"Iiiihhhh, já faz vários meses que o meu filhote deveria estar comendo comida normalmente, e ele mal larga o peito para experimentar umas pouquíssimas colheradas de outras coisas. Fruta nem me fale!! Isso de amamentar não está dando certo, será que eu dou um mingauzinho melhor..." Dúvidas, dúvidas...

-Mas tem os casos contrários: "Nossa, essa menina come demais e ainda pede para mamar!! Creio que não devo dar, não, pois se já come tanta comida, para que mamar? Não vai lhe fazer mal?"

-Se acorda muito de noite... "Será que não tenho leite?". Se não acorda... "Será que está alimentado?". Se o bebê é muito grande... "Deve precisar de mais alimento, só com o leite não dá!". Mas se ele é magrinho... "Ah, só com o meu leite não dá, deve de estar precisando de mais alguma coisa". Se mama cada pouco, se faz intervalos longos, se morde o bico, se adormece sempre mamando, se mama rápido e depois se solta e não quer mais saber, se puxa e estica, se empurra com as mãos... Tudo é motivo para pensar que "posso estar ficando sem".

Sabemos que o nosso leite está bem, que não existe leite fraco, que a produção se adequa a demanda do filho. Isso o sabemos, racionalmente, mas a insegurança nos toma por dentro quando verificamos, a cada dia, que isso de amamentar não é uma coisa matemática, nem muito menos algo estável. Hoje estamos jorrando, amanhã o peito parece vazio, molengo... Pois é. É assim mesmo. Inclusive depois de vários meses, ou anos! E às vezes o que acontece num seio, não acontece no outro. Difícil...

Confiar, confiar, confiar!

Os bebês tem dias que comem menos, como nós mesmos, adultos. Seja porque esse dia dormiram mais, porque estiveram se divertindo com outras coisas, por preguiça... Seja pelo motivo que fôr, isso acontece. Esses dias acabamos com o peito meio estourando, não sabemos como convencer o bichinho para mamar, e ele nem aí está. Então esse dia estimulam menos, e nosso corpo recebe infalivelmente o sinal: "menos estímulo gente, vamos produzir menos, tem leite sobrando aí" (O FIL -Fator Inibidor do Aleitamento- agindo como medidor da quantidade de leite stockada no peito, para não enviar mais por enquanto).

O que acontece? Que uma vez conseguimos esvaziar esses seios cheios (se a coisa não vira mastite!!), seja ordenhando ou com o bebê mamando na noite-dia seguintes... O peito fica murcho!! Depois de alguns dias estourando, sempre acontece!! Então o filhote fica braaaaaaaavo, "Cadê o meu leite, heim?". E pode chorar um dia inteiro, pode brigar com o peito molinho... ou pode, simplesmente, passar o dia todo pendurado aí, na ardua labor da estimulação. Ele está fazedo o seu trabalho, gente! Calma que o corpo também desta vez recebe a mensagem rápido, e em poucos dias (uns dois, três no máximo, se deixamos o bebê estimular como mostra que precisa)  coisa está engrenada de novo. Se caimos na mamadeira "porque estou ficando sem leite", o estímulo do bebê não vai chegar, e aí sim, de fato, vamos começar "ficar sem".

E como diz o título... "Leite vai, leite vem", mas se amamentamos em livre demanda raramente "estou ficando sem". Simplesmente isto da amamentação é um proceso vivo, cambiante, riquíssimo. Do dia para a noite, de um dia para o outro, durante anos!

A maravilha da verdadeira livre demanda

O melhor? confiar, confiar em nós, mulheres, como mães mamíferas, amamentadoras, com capacidade para nutrir os nossos filhos durante anos (exclusivamente no começo, e junto com outros alimentos depois dos 6 primeiros meses, ou do primeiro ano). E também confiar neles, filhotes, instinto puro, e acreditar que se pede mais, é porque precisa de mais (e nós conseguiremos lhe dar mais!).

O nosso peito vai ficar às vezes mais cheio (oba!) e outras meio murcho (também...). Saibam disso, e o aceitem. O compreendam. Não somos mamadeiras com a mesma quantidade de pó para a mesma quantidade de água, uma dia após o outro. Não somos máquinhas programadas. Somos seres vivos que fabricamos um líquido vivo maravilhoso para cada um dos nossos filhos, vivos também. Um monte de variáveis vivas, por tanto cambiantes, que conseguem que a cada minuto, a cada dia, o nosso leite seja não uma fórmula matemática exatamente igual à das outras mães, senão ouro branco que nutre a nosso filho com todos os differenciais que ele precisa, dependendo não só da idade, estado de saúde ou necessidades nutricionais dele, senão também do dia e da noite! Maravilha...

Também os nossos filhos não são máquinas. Ou melhor ainda, eles são, sim, máquinas perfeitas que pedem mais quando mais precissam: se vão crescer mais nesses dias, se estão ficando doentes, se tem muito estímulo externo, ficando estressados e o peito lhes deixa mais aconchegados... Eles sabem quando e quanto pedem, não importa o por que, independientemente de si já comem outros alimentos. Confiança!

E sim, claro, podemos ir "ficando sem", um dia o outro isso vai acontecer. Mas o único que vai fazer com que "fiquemos sem", O ÚNICO, é que o bebê ou criança esteja deixando de estimular, voluntariamente ou obrigado pelas circunstancias (pressão social para desmamar, pediatra pouco informado, sogra que insiste em deixar o tetê e comer mais carninha, mãe que não confia no que acredita que tem que fazer, professora que insiste na necessidade dele ser independiente... causas tem a milhares).